quarta-feira, 30 de setembro de 2015

13 de Setembro - Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á

Depois de meditarmos a fieldade de Deus na semana passada, vemos nesta semana como Jesus exige de nós uma dedicação total à vida Cristã, dedicação essa que mesmo para verdadeiros Cristãos é por vezes difícil de satisfazer.

Primeira Leitura - Is 50:5-9
O Soberano, o Senhor, abriu os meus ouvidos, e eu não tenho sido rebelde; eu não me afastei. Ofereci minhas costas àqueles que me batiam, meu rosto àqueles que arrancavam minha barba; não escondi a face da zombaria e dos cuspes. Porque o Senhor, o Soberano, me ajuda, não serei constrangido. Por isso eu me opus firme como uma dura rocha e sei que não ficarei decepcionado. Aquele que defende o meu nome está perto Quem poderá trazer acusações contra mim? Encaremo-nos um ao outro! Quem é meu acusador? Que ele me enfrente! É o Soberano, o Senhor, que me ajuda. Quem irá me condenar? Todos eles se desgastam como uma roupa; as traças os consumirão. 
A passagem que lemos aqui poderia muito bem ter sido retirada diretamente do Novo Testamento já que retrata na perfeição o Sacrifício de Jesus. Também Isaías nos convida a ser como Jesus, não por sermos fortes mas porque Deus, o Soberano, está connosco. Graças ao Sacrifício de Jesus ninguém nos pode acusar (Rm 8:33), mas não nos podemos esquecer que aquele que é como Jesus é um Cristão, ou seja, um pequeno Cristo, e portanto pode muito bem também ele sofrer muito nesta vida. Mas não em vão! Algumas pessoas pensam que Deus se alegra em ver o nosso sofrimento. Deus não deseja o nosso sofrimento, no entanto às vezes é preciso ou para ser fortalecido espiritualmente e na Fé, ou tal como Jesus, para sofrer para ajudar os outros, pois não há maior prova de amor que dar a vida pelos amigos (Jo 15:13), e amar é estar perto de Jesus e conhecer Deus (I Jo 4:7).

Salmo - Sl 115
Andarei na presença de Deus, junto a ele, na terra dos vivos.
Mas uma vez vemos o tema da proximidade com Deus. A Fé é a confiança em Deus e o início da relação com Deus, e esta deve crescer à medida que nos aproximamos de Deus. E como nos aproximamos de Deus? Não só pela oração, pelo jejum e outros exercícios espirituais, mas também sendo como Ele. Ele coloca-nos em situações difíceis mas está sempre lá para nós. É importante também realçar que o discipulado não é para mostrarmos a Deus que somos verdadeiros na Fé, e embora haja evolução espiritual em nós também não é esse o propósito do discipulado. O maior propósito do discipulado é testemunhar aos outros Deus para Ele seja glorificado e também para os outros poderem virar-se para Ele.






Segunda Leitura - Tg 2:14-18
De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: "Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se", sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta. Mas alguém dirá: "Você tem fé; eu tenho obras". Mostre-me a sua fé sem obras, e eu mostrarei a minha fé pelas obras.
Vemos aqui um dos textos mais debatidos de sempre, especialmente depois da Reforma Protestante. Será que somos salvos pela Fé ou também pelas obras? Os Protestantes tendem a afirmar a incapacidade do Homem de merecer o Céu e defendem a célebre doutrina Sola Fide, ou seja "Fé Somente", apelando a passagens como Rm 3:28. Por outro lado os Católicos referem textos como este que lemos aqui e outros como Mt 25:31-46 e defendem que as obras tomam parte na nossa Salvação de uma maneira mais forte que os Protestantes, mas sendo que a doutrina Católica sobre este assunto é muito complexa e normalmente caricaturada pelos seus detratores eu vou encaminhar o leitor para os documentos oficiais do Concílio de Trento  de modo a que possa ler a doutrina Católica pelas palavras da própria Igreja Católica.
O que se segue é um resumo de uma prespetiva algo complexa que tenho sobre este assunto e que ainda estou a desenvolver, mas posso dizer que em geral me aproximo mais da ideia Protestante do que Católica: Primeiro é importante compreender em que sentido as obras contribuem para a nossa Salvação. Certamente que não é num sentido de mérito, pois como podemos nós, homens, realizar obras grandiosas o suficiente para merecer a bênção eterna? Todos nós somos pecadores e nenhum de nós é bom o suficiente para merecer o perdão e a graça de Deus (Rm 3:23). Mas isso não quer dizer que Deus não nos dê essa graça, pois Deus é amor (I Jo 4:8) e quer a nossa Salvação. Então como é que acedemos à Salvação de Deus? Pela Fé! (Rm 10:9) Pela Fé recebemos o Espírito de Deus e tornamo-nos Filhos de Deus (Jo 1:12). E se formos realmente Filhos de Deus, o que faremos? Embora não sempre, porque os Cristãos também pecam, mas faremos boas obras como evidência da nossa Salvação, pois uma boa árvore dá bom fruto e uma má árvore dá mau fruto (Mt 7:17).
No entanto Tiago parece estar aqui a dizer que a Justificação é realmente também pelas obras (e continua a dizê-lo neste Capítulo), uma possível harmonização especulativa será dizer que as obras podem não ser apenas evidência da nossa Salvação, mas também podem contribuir para ela, mas de uma maneira não meritória: quando realizamos uma boa obra em Deus, exercemos na realidade um ato de Fé perante Deus, ato esse que será visto por Deus tal como outros atos de Fé (como confessar o Senhor), e para além disso tornamos o nosso coração mais como o de Deus e ficamos mais perto d'Ele (Mt 6:19-21). À Fé que não produz este tipo de obras e que apenas é uma "Fé" de acreditar, a essa Tiago chama de Fé morta e de nada serve. 

Evangelho - Mc 8:27-35
Jesus e os seus discípulos dirigiram-se para os povoados nas proximidades de Cesareia de Filipe. No caminho, ele lhes perguntou: "Quem o povo diz que eu sou?" Eles responderam: "Alguns dizem que és João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, um dos profetas". "E vocês?", perguntou ele. "Quem vocês dizem que eu sou?" Pedro respondeu: "Tu és o Cristo". Jesus os advertiu que não falassem a ninguém a seu respeito. Então ele começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem sofresse muitas coisas e fosse rejeitado pelos líderes religiosos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da lei, fosse morto e três dias depois ressuscitasse. Ele falou claramente a esse respeito. Então Pedro, chamando-o à parte, começou a repreendê-lo. Jesus, porém, voltou-se, olhou para os seus discípulos e repreendeu Pedro, dizendo: "Para trás de mim, Satanás! Você não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens". Então ele chamou a multidão e os discípulos e disse: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho a salvará.
Se calhar se perguntarmos aos Homens, talvez até mesmo àqueles que se chamam Cristãos, quem é Jesus, muitos vão responder que era um bom profeta ou um bom homem. Mas um homem que disse que era Deus, que ia julgar o mundo e que a Salvação se baseava n'Ele e estava errado pode ser um bom homem!? Eu acho que não. Jesus podia ter sido um grande charlatão, um lunático ou então quem Ele disse que era, mas certamente não foi "apenas um bom homem". Devemos responder como Pedro respondeu "Tu és o Cristo", que quer dizer Messias, Aquele que ia cumprir o plano de Deus e salvar o Mundo. 

Sabemos que o primeiro a dar exemplo deve ser aquele que comanda, e é precisamente isso que Jesus faz: Ele não nos pede para darmos a Nossa vida por Ele (e pelos outros) sem dar primeiro a Sua por nós! Pedro, no entanto, vendo apenas as coisas dos Homens (o conforto, o instinto de salvar a sua vida, o egoísmo) diz a Jesus que Deus não irá permitir a Sua morte. Mas Jesus, que é de Deus e vive pelas coisas de Deus, que é Amor, deseja na realidade dar a Sua vida pelos pecadores que desobedeceram às suas Leis e até estão prestes a crucificá-lo! Este é o Deus do Cristianismo e por isso Ele repreende Pedro tão vigorosamente, pois Satanás nunca se apresenta como mau, mas disfarçado de anjo, e neste caso sugerir que Jesus, um homem tão bom, fosse poupado da morte que não merecia parecia sensato, mas seria a condenação de todos nós... Finalmente vemos a célebre frase
 "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho a salvará."
É muito importante nos lembrarmos desta frase nos dias de hoje, em que cada vez os movimentos de "auto-afirmação" são populares e até se infiltram na Igreja! "Encontra o bem que há dentro de ti, afirma-te e estarás no caminho certo" é o que ouvimos dizer, mas Jesus diz "Reconhece o mal que há dentro de ti, procura o bem que está em Deus, nega-te a ti mesmo e segue-me pois Eu sou o caminho". Que nós vivamos as nossas vidas por Jesus, como Ele viveu, tomando a Sua cruz e seguindo-o, dando a vida pelos nosso irmãos. E que também não pensemos que esta passagem quer dizer que o Cristão será infeliz, já que Pedro nos fala de "alegria indizível e gloriosa" para os que estão em Jesus Cristo (1 Pe 1:8). O paradoxo resolve-se desta maneira: para aqueles que vêm as coisas dos Homens a vida Cristã é apenas uma grande cruz e não há nela alegria, mas para aqueles que vêm as coisas de Deus, a sua cruz, porque é em amor a Deus e ao próximo, por muitas dificuldades que traga é depois vista com grande alegria.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

6 de Setembro - Deus é Fiel

Somos hoje convidados a relembrar o tema da fieldade de Deus e a razão pela qual ele é importante é a seguinte: na nossa vida como Cristãos muitas vezes somos aconselhados pelo Senhor a fazer escolhas difíceis, escolhas essas que envolvem grande sacrifício e até mesmo podemos ser excluídos da sociedade ou até morrer. Mas como Deus é fiel, podemos fazer estas escolhas difíceis com a certeza de que valem a pena, de que Deus cumpre o que promete, e claro que elas são também em benefício dos que nos rodeiam.

Primeira Leitura - Is 35:4-7

Vemos aqui como é anunciada a vinda de Deus à Terra e todas as coisas boas que daí advêm. A chegada do Filho de Deus pode ser vista como o princípio da vinda do Reino de Deus, acompanhada de muitos sinais que foram anunciados no Antigo Testamento e que o Messias havia de cumprir.
Reparemos também que termos como "surdos" e "cegos" não se referem apenas a pessoas fisicamente deficientes, mas também são metáforas para a nossa condição como homens caídos sem Deus.

Salmo - Sl 146

Aqui vemos explicitamente anunciada a fieldade de Deus: Deus cumpre as suas promessas e cuida daqueles que mais precisam. Embora todos precisemos de Deus, apenas alguns escolhem colocar-se perante Deus em humildade e o admitir, a estes Deus ergue com toda a sua omnipotência.



Segunda Leitura - Tg 2:1-5

Depois de lermos as passagens acima poderíamos pensar que Deus só é bom com algumas pessoas ou que só deseja mostrar a sua Glória a alguns, mas Tiago diz-nos que na nossa Fé não deve haver parcialidade, e pois que com Deus também é assim (Rm 2:11). Infelizmente muitos se deixaram corromper pelo poder e pela fama nas posições que ocupam e utilizam a Igreja para mostrar as suas vestes e que são "pessoas de bem". A Igreja não foi feita para os Santos mas para os pecadores, e não foram os ricos que Deus chamou, mas os pobres, aqueles que em humildade entregaram a Deus o seu coração.
 Mais uma vez se fala nas promessas de Deus, para aqueles que O amam, e que Ele, sendo fiel, não deixará por cumprir. A mais importante destas promessas é talvez a da vida eterna. Mas quem são os que amam a Deus? São os Seus amigos, que fazem aquilo que Ele lhes manda (Jo 15:14). E o que é que Deus manda? Quem são os que fazem a Sua obra? São aqueles que acreditam em Jesus e confiam n'Ele (Jo 6:29). E é essa a promessa de Deus (I Jo 2:25). Estes ensinamentos estão condensados no verso "Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia"  (Jo 6:40).

Evangelho - Mc 7:31-37

No Evangelho Jesus faz um surdo ouvir. Aqui Jesus demonstra várias coisas: cumpre a profecia de Isaías do Antigo Testamento e tem autoridade sobre o Mundo para que pela Sua Palavra milagres possam acontecer. Jesus aqui mostra que é realmente o Messias, e que a sua vinda é o início da vinda do Reino dos Céus, através da qual não só todo o pecador que n'Ele confiar poderá receber a vida Eterna graças ao Seu trabalho na Cruz, mas também toda a Criação poderá ser renovada e salva, incluíndo o fim das doenças não só da alma mas também do corpo. Não devemos olhar para a Salvação como sendo apenas um processo individual que consiste numa bilhete para sair de fora do Inferno e ir para o Céu, mas como um processo que engloba toda a Criação. Termino com uma citação de N.T. Wright:

“Então em vez de sugerir que escapássemos da Terra para ir para o Céu, a Boa Nova de Jesus era sobre o Céu vir para a Terra.”                                 
N.T Wright, Simply Good News (2015) 
 





sexta-feira, 4 de setembro de 2015

30 de Agosto - A Lei

Primeira Leitura - Dt 4:1-2, 6-8

Os Israelitas já foram libertados da terra do Egipto e do domínio do Faraó e estão agora livres da escravatura. Moisés é quem os lidera, e o Senhor já enviou a Sua lei para o povo. Mas para que serve esta Lei? Vemos que em primeiro lugar Deus revela as leis ao povo de Israel para o proveito desse mesmo povo, para que vivam, pois ao cumprirmos as Leis de Deus e ao caminharmos na sua justiça, os nossos corações vão sendo cada vez mais de carne e menos de pedra, e vamos sendo mais fortes perante o pecado, idealmente atingindo a libertação total do pecado, que é a verdadeira liberdade.
Mas Deus sabia o que estava a fazer quando escreveu as Suas leis, e não nos cabe a nós criarmos tradições externas à lei, que vão colocar fardos nas costas dos nossos irmãos (Jesus vai abordar isto no Evangelho).
Embora muitas vezes consideradas como demasiado ríspidas, as leis do antigo testamento eram bastante avançadas para o seu tempo! Por exemplo, as leis sanitárias da Bíblia focavam-se em prevenir certas doenças, enquanto que a maioria das culturas possuía preceitos (muitas vezes errados) para as “curar”. Também certos grupos tinham mais direitos segundo a Lei Mosaica do que nas leis dos países vizinhos, como por exemplo os “escravos”, que possuíam um dia de descanso e protecção contra possíveis abusos do seu mestre (note-se que o termo escravatura como o compreendemos hoje não é o mais correcto para descrever o que acontecia no Antigo Testamento).
Assim, Deus também quis usar estas Leis para glorificar o seu nome, sendo que a glória de Deus é manifestada na satisfação e bem-estar do seu povo, talvez podendo assim também chamar ao arrependimento os corações de membros de outros povos.


Salmo - Sl 15 

Sabemos que Deus é perfeito e Santo, e nós não somos. Mas nós gostaríamos de estar na presença de Deus, mas como? Perguntamos com o salmista “Senhor, quem morará em vossa casa? E no vosso monte santo habitará?”. Rapidamente vemos que a resposta faz todo o sentido mas não é talvez a mais confortável de ouvir, resumidamente “é aquele que caminha sem pecado”. Mas todos nós somos pecadores! Quer dizer que nenhum de nós poderá estar na presença do Senhor? Na verdade isso é-nos impossível, mas para Deus tudo é possível (Mateus 19:26). Por isso é que Deus desceu dos Céus e se tornou num servo para que nós pudéssemos ficar sem pecado, e assim na sua presença.

Segunda Leitura - Tg1:17-18,21-22, 27

Tiago vem-nos lembrar que Deus escolheu amar-nos e nós somos somos o povo que irá pregar o seu Evangelho a todas as criaturas, sendo assim os primeiros frutos. Mas temos o dever de aceitar a Palavra de Deus no nosso coração, pois é através da Sua Palavra e do Seu Espírito que Deus abre os nosso corações e nos converte. Devemos é evitar aquele pecado que Jesus tanto odiava: a hipocrisia, e lembrar-mo-nos que as Leis de Deus não são instruções vazias e pietistas, mas que o que Ele pretende com elas é que nós sejamos bons uns para os outros. Somos salvos pela Fé e pela sua graça, e embora o cumprimento das Leis não seja meritório da nossa salvação, este é certamente central na vida de qualquer Cristão, não só como uma demonstração da verdadeira Fé mas também como um processo que converte o nosso coração.


No Evangelho vemos como Jesus condena o legalismo e hipocrisia dos fariseus: criando as suas tradições, eles sobrecarregam as pessoas com pietismos exagerados, dando-lhes fardos pesados e talvez até as afastando do Reino dos Céus. Devido às leis dietárias do Antigo Testamento (que foram feitas para aquele tempo específico e não são o ideal de Deus, bem como outras leis do Antigo Testamento) os fariseus pensavam que um homem se tornava impuro por aquilo que comia e bebia, ignorando o que realmente faz um homem impuro, como Jesus lhes lembra, que é aquilo que sai de dentro do seu coração. Eles violaram a Lei de Moisés, adicionando à Lei de Deus. Jesus não quer os nosso rituais, as nossas orações repetitivas sem significado, as nossas longas vestes, os nossos templos ou as nossas esculturas, Ele só quer uma coisa: o nosso coração. Se ainda não deu o seu coração a Jesus, porque não o faz hoje? Lembre-se que Ele já lhe deu o d'Ele!

terça-feira, 25 de agosto de 2015

23 de Agosto - Chamados ao Compromisso

O tema desta semana é o compromisso: Deus não deseja Cristãos “nominais”, ou seja, que apenas se auto-intitulam Cristãos mas não o seguem, nem deseja um acordo só de palavras mas sem acções. Deus quer um verdadeiro compromisso, mas que tal seja possível, dá também ao Homem a liberdade de o assumir ou não.

Primeira Leitura - Js 24:1-2; 17:15-18

Começamos com uma leitura do livro de Josué, o sucessor de Moisés, já depois do Senhor ter libertado os Filhos de Israel do domínio do Faraó. Após Josué apresentar ao povo de Israel a escolha que Deus lhes oferece (tal como em outros locais da Bíblia como Dt 30:15), o povo apresenta a libertação da escravatura como sendo a razão porque escolhem o Senhor, no entanto rapidamente se apercebemos que muitos deles foram como aquele filho que disse ao seu pai que ia trabalhar para a sua vinha, mas não foi (Mt 21:28-32). É verdade que a libertação da escravidão foi um grande trabalho de Deus, e que foram realizados grandes milagres, mas Jesus liberta-nos da escravidão espiritual e de Satanás, algo muito mais severo que a escravidão do Faraó. Podemos viver como escravos no Egipto toda a nossa vida, mas livres do pecado espera-nos Deus e a vida eterna, mas se vivermos livres do Faraó e sem Deus mas apenas com os nossos pecados, então o que nos espera é precisamente isso: uma eternidade sem Deus e a sós com os nossos pecados, e a consciência de quão eles foram graves perante o Juiz do Mundo. Muitas vezes damos mais valor a coisas terrenas, mas lembre-mo-nos das palavras de Jesus: “Pois qual é mais fácil? dizer: Perdoados são os teus pecados, ou dizer: Levanta-te e anda?”. Que hoje sejamos como Josué e escolhamos servir o Senhor, e que saibamos que a Salvação de Jesus ainda foi maior que a de Moisés.

Salmo -  Sl 34

No Salmo podemos observar que o Senhor é fiel aqueles que em si procuram refúgio (v. 22), e portanto podemos estar sempre seguros nele, por muito grandes que sejam os nosso pecados (Is 1:18). Mais uma vez vemos que aquele que escolhe não estar em comunhão com Deus (o que só é possível com um compromisso), esse terá de lidar com os seus próprios pecados.

Segunda Leitura - Ef 5:21-32

Sendo que já dediquei dois artigos ao feminismo (que pode ler aqui e aqui), gostaria de apenas brevemente referir que este texto não deve ser considerado misógino: Deus apenas idealiza que exista na família um líder, e escolheu que deve ser o homem. No entanto esta liderança não é opressiva para a mulher e não faz o homem superior à mulher, dá sim ao homem mais responsabilidade. É muito interessante também ver como o apóstolo compara o compromisso do aliança que é o casamento com o compromisso da aliança que é a fé, e tal pode ser sumariado no lema da aliança: “eu sou teu e tu és meu”. Pode ler mais sobre as alianças de Deus e a sua relação com o casamento aqui.

Evangelho - Jo 6:60-69

É preciso compreender a razão pela qual os judeus se escandalizavam com Jesus: de acordo com a lei de Moisés (que é também a palavra de Deus), os judeus não podem beber sangue (Lv 17:10-11), mas Jesus diz-lhes que eles têm de beber o seu sangue e comer a sua carne para terem a vida eterna. Podemos entender o beber o sangue de Jesus como uma metáfora para uma comunhão forte com Ele, no entanto os patriarcas da Igreja também afirmavam que no pão e no vinho o Senhor estava realmente presente, e que ali tínhamos a sua carne e o seu sangue (pode encontrar algumas dessas citações neste link), no entanto é verdade que noutras ocasiões estes também recorriam à interpretação metafórica em certas passagens. Penso que o que devemos aprender é que o compromisso com Jesus é realmente importante, e que a Seia do Senhor foi uma das maneiras que Jesus escolheu para estarmos em maior comunhão com Ele, não a podendo menosprezar qualquer que seja a nossa Teologia.
Vemos que Jesus também faz uma observação que pode deixar os mais atentos um pouco perplexos: “É por isso que vos disse: ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai”, o que poderia significar que Deus não tinha concedido àqueles judeus se converterem por razões exteriores a si mesmos. Alguns Cristãos tomaram esta posição ou semelhantes, sendo o exemplo mais notável Calvino. Não tomando eu essa posição, gostaria de lembrar a todos que sem a graça de Deus é impossível ao homem chegar a Ele. A questão é: porque é que a estes judeus não foi permitido pelo Pai chegarem ao Filho? Penso que foi precisamente porque estes tinham dado ao Pai um compromisso de palavras mas que o seu coração estava longe (Mt 15:8), eles tinham escolhido endurecer o seu coração e resistir ao Espírito (Is 65:2; Act 7:51).
Talvez para nós beber o sangue de Jesus não seja duro de ouvir, mas e quando Jesus trouxer palavras duras um dia para nós? Quando nos alertar dos nosso pecados, quando nos pedir para o afirmarmos frente a multidões hostis, ou talvez quando denunciar a nossa imoralidade sexual ou ganância? Lembre-mo-nos que um pai disciplina aqueles que ama (Pr3:12). E se muitos forem embora e Jesus perguntar: “Vós também vos quereis ir embora?”, que nós não nos fiquemos por responder “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna.", pois Jesus não é de louvar apenas porque não há outro, Ele é de louvar porque não poderia haver outro melhor, pois é impossível ser mais Santo que o Santo de Deus.








segunda-feira, 17 de agosto de 2015

16 de Agosto - Uma mulher vestida de Sol

Quero aproveitar esta semana para tocar num assunto sensível a Católicos e Protestantes: a devoção Mariana. Muitos dos Cristãos Portugueses são Católicos, e muitos também crêem no milagre de Fátima, sendo imensamente devotos à virgem Maria. A Igreja Católica celebra esta semana a Ascenção da Virgem Maria aos Céus, algo que todos os Católicos são obrigados a acreditar por ter sido um dogma proclamado "ex cathedra" pelo Papa Pio XII em 1950, que pode encontrar aqui. Vou tentar responder às seguintes perguntas: 

  • Será que Santos "pisa o risco" da idolatria?
  • Fará sentido a nossa salvação depender da crença num dogma como a Assunção?
Consideremos as leituras:



Aqui lemos como uma mulher dá à luz um Filho, que vence o demónio. O livro do Apocalipse é sempre difícil de interpretar, mas parece claro que este Filho é Cristo. No entanto a pergunta permanece: quem é a mulher? Católicos dizem que é a Virgem Maria, a Mãe de Jesus, no entanto Protestantes afiram que a mulher é a Igreja. A realidade é que ambas as interpretações fazem sentido: realmente Maria deu à luz Jesus, a Palavra de Deus, tal como a Arca da Aliança antiga continha as palavras de Deus inscritas nas tábuas da Lei (Ex 16:25). O mesmo acontece no salmo, onde a Rainha pode ser Maria ou a Igreja (a esposa do Rei). Mas também é verdade que a Igreja foi perseguida por Satanás e Deus lhe preparou um lugar. Não tentarei resolver esta disputa aqui, pois isso exigiria uma série de artigos dedicados apenas a esta passagem! Mas talvez o leitor tenha hoje conhecido uma interpretação diferente da que está acostumado. 

Aqui lemos uma das mais belas passagens da Bíblia, uma que também merece uma análise maior do que a que aqui vou expor, sendo que a promessa de Salvação é especialmente optimista ao lermos o apóstolo escrever "Pois, da mesma forma que em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados", embora Jesus tenha avisado várias vezes que alguns, infelizmente, se perderão (Lc 13:23-24). No entanto esta passagem de Coríntios mostra que podemos enfrentar o futuro com esperança, que a morte será vencida, e que a morte em Adão não é mais forte que a vida em Cristo. Esta passagem mostra que Jesus é tão bondoso e poderoso que a única coisa que nos pode separar do Reino dos Céus é a nossa escolha de o rejeitarmos. 


No Evangelho lemos o célebre anuncio do anjo a Maria, que é descrita como "bendita" e "mãe do meu Senhor". Vemos também a humildade de Maria, que reconhece que é graças a Deus que ela pode receber os louvores que ainda hoje recebe. Maria recorda um tema recorrente na Bíblia: a maneira como Deus não se esquece das suas promessas, e Jesus é precisamente o culminar de todas estas promessas.

É claro que Maria não é um ser humano qualquer, ela era realmente uma serva fiel de Deus, bendita e bem-aventurada, era o que costumamos chamar, uma Santa. Devemos certamente honrar a Mãe do Nosso Senhor, mas não existirão certos exageros por este mundo fora? Lembre-mo-nos de que quem salva é Jesus, e não os santos. É a Ele que devemos a nossa devoção. Infelizmente vemos muitas vezes pessoas adorarem os Santos como quem adora a Deus, e sabemos que Deus não permite isto, sendo o pecado conhecido como idolatria (Lv 19:14), e até mesmo o escritor do Apocalipse caiu no erro de adorar a um que não Deus (Ap 19:9-10). A Igreja Católica introduz uma diferença útil nesta discussão: enquanto nós adoramos a Deus (latria), nós apenas honramos (dulia) os santos. Santo Agostinho escreveu o seguinte:

Ninguém no altar da sepultura dos Santos diz: "Trazemos para ti uma oferta Ó Pedro!", "Ó Paulo" ou "Ó Cipriano!". A oferta é feita apenas a Deus, que deu a coroa do martírio, enquanto que é em memória daqueles assim coroados. A emoção aumenta pelas associações de lugar, e o amor é excitado sobre os que são os nossos [bons] exemplos, bem como Aquele cuja ajuda nos permite servir tais exemplos. Nós encaramos os mártires como a mesma afecção intima que sentimos em relação a homens santos de Deus nesta vida, quando sabemos que os seus corações estão preparados para passar o mesmo sofrimento pela verdade do evangelho. Há mais devoção no nosso sentir para com os mártires, pois sabemos que o seu conflito terminou; e podemos falar com maior confiança em louvor àqueles já vitoriosos no Céu que daqueles que ainda aqui combatem. O que é propriamente adoração divina, que os Gregos chamam de latria, e para a qual não há palavra em latim, tanto em doutrina como em prática, nós apenas oferecemos a Deus. A esta adoração pertence a oferta de sacrifícios; como vemos na palavra idolatria [ido de ídolo e latria de adoração], que significa oferecer esta adoração aos ídolos. Desta forma não oferecemos, nem requeremos que ninguém ofereça, sacrifícios a um mártir, ou a uma alma santa, ou a algum anjo. 
 Contra Fausto, Livro XX, secção 21; NPFF 1, Vol. IV


E sendo este o Domingo da celebração da Assunção da Virgem Maria, independente de acreditar ou não, parece-me um exagero que alguma denominação Cristã excomungue um fiel seu por duvidar de algo que apenas foi definido quase 1900 anos depois de alegadamente ter acontecido. É claro que aqui estão outros dogmas subjacentes, como a Infalibilidade do Papa, que no entanto também considero errado, e ainda mais exagerado por todo aquele que não nele crer ser excomungado de acordo com o Concílio Vaticano I, mas não quero fazer deste artigo uma crítica à doutrina Católica da infalibilidade do Magistério e das suas pesadas penas. Em suma é isto que quero transmitir:

  • Maria foi uma grande serva de Deus e devemos honrá-la.
  • Se você é um protestante fiel a Deus e a nossa Senhor Jesus Cristo e embora valorize os santos, não presta veneração, certamente que isso não o afastará do reino dos Céus.
  • Se você é Católico, lembre-se das distinções que a própria Igreja Católica faz, bem como as do seu mais influente teólogo e Doutor da Igreja, Santo Agostinho, e não se deixe cair em idolatria, lembrando-se que Jesus é que salva e que aos santos devemos honrar mas não adorar.
  • Examine também a rígida doutrina da infalibilidade Papal e das penas de excomunhão por não acreditar em certos dogmas que não se relacionam directamente com a Salvação. Você acha que um irmão protestante fiel a Jesus deixa de ser um Cristão e é expulso da Igreja Universal por não crer na Assunção ou na infalibilidade do Papa?
  • Investigue as escrituras e o que disseram os patriarcas da Igreja para saber mais sobre este assunto complexo da veneração dos santos.
Em Cristo